segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

TELEPATIA ANIMAL

Primeiros dias de Novembro de 1957.

Em frente ao café do Silva, à noite, miúdos espigadotes, esticávamos os pescoços na tentativa de, por entre as nuvens, descortinarmos a luzinha móvel que havia de aparecer no céu.
O burburinho intensificou-se quando, de repente, confundindo-se com as estrelas, lá vimos a tal luzinha brilhante que sabíamos ser o Sputnik, que transportava o primeiro ser vivo a viajar no espaço.
Sabíamos, ou julgávamos saber, que lá dentro ia a simpática Laika, cadelinha vadia que tinha sido recolhida nas ruas de Moscovo e, durante meses, treinada para a viagem.
Tínhamos lido que, na Terra, os controladores iam monitorizando os batimentos cardíacos do animal, a sua respiração, o oxigénio e o anidrido carbónico no interior da nave espacial.
Tudo isto nós sabíamos, ou julgávamos saber.
A Laika estava, ou julgávamos que estivesse, em perfeitas condições de saúde e segurança.
Até o pachorrento Douro, enorme cão da Serra da Estrela que se juntara a nós, também olhava o céu, parecendo perscrutar, sei lá se com uma ponta de inveja, aquela luzinha longínqua onde viajava a já famosa Laika.
Alvoroçado, abanando o rabo, latia e com o seu ladrar meigo, parecia querer dizer-lhe que ele estava ali, orgulhoso da sua raça, a dar-lhe força e coragem.
É curioso que no dia seguinte à mesma hora, o Douro estava ali connosco mas já não olhava o céu como nós, quando a luzinha reapareceu. Amodorrado a um canto, triste, nem ladrava...
Veio a saber-se, anos mais tarde ,que a Laika, coitada, perecera cerca de sete horas depois do início da viagem.

Rui Felício

4 comentários:

  1. Só muito recentemente foram divulgados os relatórios que descrevem a agonia da pobre cadelita, que, veio a saber-se, não conseguiu resistir às condições infernais existentes no interior da cápsula em que se encontrava prisioneira.
    Ainda hoje, segundo o artigo que li, o cientista responsável por este projecto se interroga se esta experiência valeu a vida deste pobre animal.

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  2. É verdade que há cães muito mais inteligentes e afectivos que os donos...e,ao Douro, presto a minha homenagem pela sua humanidade e também me orgulho daqueles putos por já saberem escolher um verdadeiro amigo!
    Laika bem hajas pela sua coragem!

    "Ainda hoje não sei se eu sou o´primeiro homem`
    ou o `último cachorro´a voar ao espaço"
    yuri Gagarin

    Aqui ficou bem evidente que a telepatia animal
    existe.
    E será que a telepatia humana existe? Ou só talvez um dia...irá devagar!

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  3. Presunçosos, achamo-nos no topo da pirâmide animal.
    Na nossa não reconhecida ignorância, desvalorizamos as qualidades dos animais, para não termos que estabelecer comparações com as nossas incapacidades.
    A afectividade, a sensibilidade, a premonição dos cães ( para não falar de outros animais ), estão muito para além da nossa compreensão.
    Mas não o queremos admitir, porque isso seria o desfazer do mito da nossa propalada superioridade.
    Neste últimos dias de mau tempo, não me foi dificil por mais do que uma vez, "adivinhar" que em breve iria trovejar.
    Bastou-me estar atento ao comportamento deles, muito antes dos trovões aparecerem.

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  4. Laika poderá considerar-se, talvez - e já lá vão remotos anos - como cobaia dos homens, dito animal racional. Não nos passará certamente pela cabeça, os sacrifícios e atrocidades cometidas em nome de um dito progresso científico. Laika terá sido a ponta do iceberg. Mas não é por isso que a afronta aos legitimos direitos dos animais, não continua...

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